"O SILÊNCIO NÃO COMETE ERROS"
Lá vai ele numa sexta à tarde, 16 de agosto de 1996, exatamente na sua sesta — tinha pegado as estradas para Belo Horizonte — e segurando as pálpebras para não dormir. Tranquilo e sereno, desde quando nascera, em Santo Antônio do Grama, MG, com limpos e escassos cem reais no bolso, sem a mínima lembrança de ter conferido se documentos do carro e pessoais sobravam nos bolsos, bolsas, porta-luvas.
Sonolento, sim, mas tinha o compromisso de um curso ligado à radiologia,
era ele um médico que estreava em Itabira o ultrassom. Um rapaz elegante, bem
vestido, boa aparência, pediu-lhe carona. O motorista não hesitou, abriu-lhe a
porta do veículo, cumprimentou-o, estendendo a mão. Saíram conversando sobre
tudo — política, futebol, até polícia, que a partir daquele instante havia
passado a ser o assunto do momento.
“POR FAVOR, PARE!”
Estas foram as palavras do “passageiro”, que continuou educado, era um moço alegre e
polido demais, segundo descrição do médico Antonio Leal. Nisso, apareceu o
segundo assaltante, que esperava no local e disse logo “Não vamos matar o
senhor agora caso fique parado, quieto, bem-comportado”. Retrucando, o gramense
fez o seu solene pedido: “Pelo amor de Deus, não me mate porque tenho mulher e
três filhas para cuidar; leve tudo o que quiser, mas me deixe viver”.
Leal foi retirado do carro e levado para a estrada
de Bom Jesus do Amparo, amarrado numa árvore até que se saltou, aos poucos,
caminhou rumo ao Posto Trevo ali perto, onde telefonou para a Polícia e foram
tomadas as providências.
“MAIS 30 ANOS TÁ BOM?”
Fora de risco, o médico esperou as providências. O
carro foi apreendido porque os documentos ficaram em casa, ele foi
transportado, retornou ao lar, soltando um sorriso que todos conhecem. Ninguém
pediu, mas hoje parece que os bandidos fizeram-lhe a pergunta decisiva: “Mais
30 anos tá bom?”
E a vida continuou, cuidou da família, trabalhou
muito, deu conta das filhas e mais cinco netinhos. De bem com a vida, cuidado
por todos, muito bem com Zilda, sua companheira de longos anos, resolveu
partir.
Simples como foi a sua vida, honrando seu sobrenome
como se teria feito compromisso com a “Lealdade”, muitas vezes silenciosa, foi
chegando sua hora. Era 4 horas da manhã de 24 de julho de 2026, sem alarde,
pediu água.
Carinhosamente a companheira levantou-se e lhe trouxe o pedido. Mas, desta vez Antonio não agradeceu, nem bebeu. tinha partido para de onde tinha vindo.
Faltando apenas um mês e oito dias para completar 85 anos, ou 30 imaginados que viveria para zelar pelas três filhas e a companheira, ouviu-se um adeus em mudo, sereno, quieto, sem soluço, sem tosse. O médico Antonio Leal já me disse pelo menos três vezes e copiei no WhatsApp: “O silêncio não comete erros”,
JOSÉ SANA
Em 26 de julho de 2026
Foto: Álbum da Família
P.S-1 - Para
agradecer a receptividade do povo de Santo Antônio do Grama, especialmente à
família do patriarca Antonio Leal. O mundo todo deveria ser como é a Família
Leal. Assim o mundo todo seria leal.
PS-2 - Na Família Leal é preciso registrar o nome de Rosilda. Ela desfruta 38 anos de convivência e confiança leais. Consequentemente, é Leal.
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